sexta-feira, 2 de março de 2012


Eu queria ir muito além do motel com ele, queria ir à casa de seus pais e ver suas fotos de quando era criança. Queria conhecer sua cama. Saímos do motel pela manhã e ela me pergunta:
—Quando iremos nos ver de novo?
— Em breve…
Ele me olhou com um olhar desentendido, eu nunca tinha sido assim. Minhas mãos estavam tremulas, eu estava explodindo de felicidade por dentro. Eu que sempre explodia de prazer apenas.
—Breve pode ser tarde demais.
Eu havia me esquecido de sua doença. Seus olhos eram saudáveis, sua boca era saudável. Cabelo, pele e suor. Tudo era saudável a meu ver.
— Amanhã…
—Que horas?
— A hora que você quiser.
— Por mim ficaria com você o dia todo.
Não gosto de homens grudentos; Nunca fui acostumada com amor recíproco, com carinho recíproco, na verdade eu sempre fui acostumada com a falta. Sempre me virei bem com o que faltava. Sempre soube o que fazer. Mas com ele foi diferente em tudo, na virgindade e nos beijos.
—Mas não podemos — Sorri — Tenho que ir à editora, e você deve ter algo pra fazer.
— De certo não posso ficar, tenho que ir tomar os remédios, não morri ainda né?
— Não fale assim.
Eu havia mentido, não tinha nada pra fazer durante o dia todo. Na verdade eu queria pensar, pensar na noite anterior e ver se era real, se poderia ser real. Um desconhecido me fazendo não me reconhecer. Fixei os pensamentos o dia todo em suas mãos em meus quadris. Um virgem que sabia o que fazer. Virgem que parecia não ser virgem.  Mas eu não sei se poderia ficar com ele até o fim, não quero ter que sofrer depois, não quero chorar um amor, não quero enterrar um amor. Eu sempre tive medo do amor, sempre tive medo de amar mais do que o saudável e me tornar doente de amor. Por isso não escrevo romances, por isso optei pelo sexo é mais prático e prazeroso. Ele pode morrer, eu não quero amar. Talvez, eu saia com ele mais algumas noites e dê a ele o que quer, dê a ele carinho e sexo. Mas não posso dar amor e por mais que eu queira, por mais que eu saiba que isso pode acontecer eu não quero (telefone toca).
— Lorena?
— Sim, quem fala?
— Já se esqueceu de minha voz?
Ele era tão clichê. Não conseguiu ficar um sem me escutar, eu sabia que era ele, mas um mulher não pode ser fácil assim, não pode se entregar os pontos.
— Não.
— Nem eu de você.
— Tudo bem?
— Sim, e você?
— Vou bem. Para quê ligou? — Às vezes sou direta, mas sempre confundem com grosseria.
— Saudade — Riu do outro lado da linha.
— Já?
— Quando uma pessoa nos faz bem, ela faz falta sempre.
— Tem certeza?
— Não sentiu minha falta?
— Senti falta do seu calor sim…
— Você sempre se escondendo atrás do erotismo.
— É melhor assim, não acha?
— Não, quero ver quem você é de verdade.
— Eu sou alguém que não vale muito a pena de se conhecer.
— Sei que não é verdade…
Passamos a noite toda no telefone, parecia que eu voltava a minha adolescência, mas dessa vez sem minhas conturbações e baixa estima. Ele me ligara antes mesmo do sol se pôr, e agora ele está nascendo.
— Acho que é hora de desligar.
— Por mim ficaria o dia todo lhe escutando, ouvindo suas histórias sabendo mais de você.
De fato ele aprendera mais de mim, contei os meus medos e pude revelar alguns de meus sonhos. Ele me envolvia cada hora mais, ele me fazia esquecer-se de sua morte tão próxima.
— Mas não podemos, eu tenho coisas a fazer. Tenho uma vida sabia?
— Eu sei, eu ainda sei o que é viver.
— Desculpe-me não quis dizer isso — Disse em tom de arrependimento.
— Tudo bem, você não tem culpa. Tenho de ir ao médico hoje quer ir comigo?
— Quero! — Disse em impulso.
— Tudo bem, onde quer que eu lhe pegue?
— Me fale onde é, prefiro ir sozinha.
Me passou endereço, passei a tarde pensando nele e na noite anterior. Fui de encontro a ele.
— Você está linda!
— Você ainda continua gostoso, fez a barba…
— Gostava mais antes?
— Gosto dos dois jeitos.
Subimos ao médico, fora pegar alguns resultados dos exames. Ele saiu do consultório calado e ficamos em um silêncio massacrante durante meia hora.
— Quer sair daqui?
— Ir pra onde? — Ele se animou.
— Onde tudo começou.
— Boate?
— Não, motel.
Ele sorriu. E vê-lo sorrindo me fez sorrir. Fomos para o motel, dessa vez ele não se intimidou. Recepção, hidromassagem, cama redonda, banheira. Cheiro de sexo. Pessoas fazendo sexo. Parece promiscuidade, mas tem muito mais que sexo em motéis. Existe amor. A recepcionista estava sorrindo, não era a do outro dia. Essa não perguntou o quarto que o casala queria, ela só nos desejou prazer. Não fomos de escada, fomos de elevador agora. Quis testar novas coisas, um sexo orla no elevador, um amasso enquanto somos filmados, isso me deixava mais sexy. Fazia-me sentir em um reality shows, mas dessa vez sem cobertor. Cama, espelhos.
— Finalmente.
— Quer beber alguma coisa?
— Não estou com sede de bebidas, estou com sede de você.
— Então me beba. Beba sem moderação alguma.
Suas mãos firmes, minhas pernas abertas e ele no meio delas. Hora eu por cima e depois por baixo. Ficamos nos olhando enquanto nossos corpos se friccionavam. Ele me beijava com fervor, com febre de sexo. Não era mais virgem. Deitados agora, eu sobre seu peito me disse:
— O médico me deu mais algumas semanas.
Não sabia o que responder, só tinha vontade de abraçá-lo, de sair correndo com ele pra longe e tirá-lo do olho do furacão. O abracei com lágrimas nos olhos.
— Obrigado.
— Não tem o quê agradecer Eduardo.
— Não Lorena, eu tenho que  agradecer. Não sei, mas eu me sinto grato.
Saímos durante mais umas três semanas e cada vez mais ele era bom no sexo. Eu havia me apaixonado, estava começando amá-lo. Pela primeira vez, pela primeira vez eu quis casar e ter um para sempre clichê. Sorria em ouvir seu nome, Agora ele vinha até minha casa, ele dominava minha cama. Sofá, e todos os cômodos. Não era apenas sexo, era amor. Os dias foram se passando, cada vez mais éramos unidos, pensávamos em até morarmos juntos. Estava em meu escritório, o telefone toca era outro homem, mas não o Eduardo:
— Ele se foi Lorena.
Minhas pernas tremendo, ânsia de vomito, lágrimas, rímel borrado. Escutava uma voz vindo do telefone que estava caído.
— Lorena? Lorena! Ele a deixou uma carta…
Sai a sua procura, estava no hospital municipal. Cheguei, e li a carta que dizia o seguinte:
“Lorena,
Você me levou ao motel e devorou-me. Mulher, não era como as meninas no qual me envolvi. Lorena, eu queria ter te conhecido ainda saudável, queria ter te conhecido quando eu não tinha data certa para morrer. O motel, o sexo. Eu queria ter conseguido lutar contra a doença, mas eu não fui forte. Obrigado. Obrigado por ter feito esses últimos dias terem sido os melhores dias vividos de minha vida. Obrigado por ter me ensinado que uma mulher bem resolvida não é uma vadia. Lorena, eu sei que você é forte e não se ache uma pessoa má. Eu sei o quanto você é doce. Sempre tive a impressão que ia te perder, e agora estou. Dói saber que te deixo agora. Espero que você fique bem então me esqueça. Espero que você não sofra. O sexo virou amor. Minha virgindade foi sua, assim como meu coração agora é teu. Foram um pouco mais de um mês, mas valeu por toda a minha vida. Com amor, Eduardo.”
Direcionei-me até em casa, segurando sua carta, e escorrendo as lágrimas sobre meu rosto. Estava enjoada. Morto, enterrando um amor. Meu erotismo não tinha sido suficiente pra me enganar que eu sentia era amor. Morto, irei lembrar-me de suas mãos em meus quadris e de nossos corpos friccionando. Apaixonei-me por um doente, e agora a doente sou eu, doente de amor e saudade. Sexo que virou amor e amor que agora causa dor.”

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